A sorte grande e a terminação
Se hoje vieram pelas piadolas, baixem as expectativas. Trago-vos uma salada russa de desabafo e leves altercações, temperada com crise existencial e com topping de pouquinha fé na Humanidade qb.
Suspeita nr. 1: menina privilegiada, acabada de terminar o percurso no Ensino Superior; número de rugas diretamente proporcional ao de anos de descontos; pais que não sonham que andou a esbanjar o dinheiro da bolsa em croissants da Padaria Portuguesa. Saudades 2016, costas impecáveis e menú pequeno-almoço a 2,5€ com sumo natural.
Fui um bombom na Consoada. Não levantei ondas, só levantei a mesa. Não fiz escabeche, fiz antes pão recheado. Evitei entradas a pés juntos e também não comi pézinhos de coentrada. Engoli ainda mais sapos do que farófias e fui um sonho de menina bem comportada. Tudo isto para borrar a pintura na passagem de ano. Deus me ajude, já que a Santa Paciência não colabora.
Entrei numa discussão sobre privilégio, Dale Carnegie que venha aqui julgar-me e mais os discípulos dele, mestres suprassumo da auto-disciplina e do silêncio sapientíssimo. Fartei-me de apregoar que ah e tal “A melhor maneira de ganhar uma discussão é não participar numa” para depois falhar miseravelmente no último dia do ano e acabar a morrer na praia, numa areia movediça de argumento-vai-argumento-vem.
Não queria que este primeiro texto do ano fosse sobre discutir. Tentei varrer o tema para debaixo do tapete, escondê-lo num cantinho do cérebro, ali atrás de uma orelha, acalcá-lo com resoluções de ano novo pesadonas e extravagantes. Não resultou. Cá está ele! Perdoa-me, pai, eu pequei.
Tudo começou quando alguém à mesa disse que não achava que um colega em comum fosse privilegiado, que o que ele tinha era mérito. (Eu não disse que era enervante? Tocaram-me no botão Meritocracia, um dos botões vermelhos com avisos na zona de perigo).
Acontece que esse colega empreendedor cresceu num agregado familiar de classe média alta, com ambos os pais formados e com empregos estáveis e salários acima da média nacional. Nunca teve de trabalhar para pagar os cursos superiores nem para alugar um quarto numa cidade diferente, porque sempre morou na casa dos pais - até há bem pouco tempo.
O colega em questão tem dois Porsches, uma posição de efetivo, um ordenado bom e um negócio próprio de sucesso. Durante o fatídico jantar, este outro amigo defendia que nada disto era privilégio. Que ele estudou e trabalhou para ter o que construiu. (E alguém privilegiado não o pode fazer? Não é cumulativo, partir de uns metros à frente na corrida e mesmo assim ser bom atleta?)
Segundo ele, privilegiados são os que estudam lá fora e fazem formações com nomes estrangeiros complicados, tudo à custa dos pais. Quem completa um percurso escolar no Ensino Público e frequenta uma Universidade acaba no mesmíssimo patamar. Todos.
(Lá vem a história de estarmos todos no mesmo barco. Nunca concordei com estes farsolas marinheiros. Não estamos no mesmo barco não, marujos. Estamos no mesmo mar, mas com embarcações diferentes. A minha é alugada, por exemplo. A do outro foi oferecida pelo pai. Há quem não tenha nenhuma e acampe na ilha).
Tenho bastante a dizer sobre privilégio. A primeira coisa é que estou cheia dele - e isso não me torna batoteira. Torna-me muito sortuda e deve, sobretudo, tornar-me consciente - para saber que parto com uns quantos passos de avanço em relação a quem não teve possibilidade de estudar, de viajar, de arriscar, de escolher e de errar por aí entre caminhos.
Na escola quase todos os meus amigos tinham sapatilhas de marca com rodinhas e Tamagochis originais (tão chatos quanto os falsos), casas bonitas na cidade, consolas cheias de jogos e férias no Algarve. Eu tinha férias na Foz do Arelho (em regime de estadia não incluída e almoço na geleira), uma casa inacabada nos subúrbios, uma mala da feira, dvds pirateados (o Senhor Guarda da semana passada ia adorar ler este texto), uma televisão com quatro canais, todos os livros que quis e mais alguns, amor a dar com um pau e demasiados presentes no Natal. Fui a todas as visitas de estudo, festas de aniversário, sessões de cinema e o diabo a sete. Andei na natação, no hip-hop, na música, na catequese, em campos de férias, só não andei nos escuteiros porque a mãe dizia que eram parolos nem no ballet porque eu dizia que era para betinhos (e eu era dread, mas dispensemos afirmações óbvias).
Na altura de ir para a faculdade, surgiu a hipótese de ficar numa residência e essa foi a bóia de salvação para os anos seguintes. Morei na Residência Universitária Alfredo de Sousa, onde conheci a minha grande amiga Raquel Dias da Silva (com quem partilhei o quarto 203) e muitos outros estudantes deslocados, uns mais acima e outros mais abaixo na geografia e na escala do privilégio, todos unidos pelo carimbo de bolseiro ou jovem com apoio de ação social.
Se não fosse a bolsa, muitos de nós não teríamos a mínima hipótese de ali estar. Corria 2013 e um quarto em Lisboa rondava os 250 euros - a acrescer ao passe, às propinas e às despesas de alimentação. Por mais boa vontade que houvesse, intenções não alimentam barrigas nem pagam fotocópias de sebentas.
Não consigo encarar um curso superior como uma planície à qual todos chegamos no mesmo estado e da qual todos saímos com as mesmas condições. Não ter de pensar em dinheiro ou na falta dele já é abrir um espaço vago para outros assuntos no nosso consciente. Juntem-lhe um ambiente familiar estável e seguro, outro verdadeiro privilégio do qual pouco se dá conta quando se tem, e vão acumular dois trunfos na manga e uma almofada fofa caso tropecem pelo caminho.
O ciclo da desigualdade leva algumas gerações a dissipar. Se o meu pai passou fome e cresceu sem luz elétrica nem água canalizada, não podemos falar de igualdade de oportunidades. É que ele também andou na escola pública (quando o deixavam ir) e, pela lógica do meu opositor nesta discussão, gozaria do mesmo privilégio dos colegas por ali estar.
Estes argumentos até soam hipócritas e longínquos - especialmente quando lançados ao ar numa mesa recheada com queijos diversos, enchidos em disposições lindíssimas e uma gloriosa sapateira - mas, acima de tudo isso, soam desnecessários. Nunca equacionei que alguém pudesse negar que lhe saiu a lotaria ao nascer homem, branco, heterossexual, europeu, sem incapacidades e na classe média-alta.
Falei-lhe, claro, dos tempos da residência e do nulo ou escasso valor que restava da bolsa (muitas vezes à justa para as propinas) para o acesso à cultura, às viagens, ao entretenimento, ao desporto, aos hobbies. O bilhete para ambientes superiores e com acesso ao tão famoso elevador social (não vou bater mais no Ministro da Educação, deixo essa conversa encerrada em 2025 e com votos que ele não se volte a meter em discursos dúbios) não está ao alcance de todos, ainda para mais quando as preocupações são que o dinheiro chegue ao fim do mês e não voltem a sobrar dias.
(Eu acrescentaria o ponto 5: só se materializa na comparação.)
Este meu interlocutor (não o vou chamar de adversário, que também não chegámos a tanto! - mas bastava ele ter tocado no botãozinho Racismo, que estava mesmo ao lado) nasceu num berço de ouro e cresceu rodeado de meninos criados em berços dourados, o que o faz pensar que os vinte e quatro quilates são o ponto de partida normal. Falta-lhe, talvez, conhecer alcofas de incenso e mirra.
Com a sensibilização em mente, pensei em começar a campanha “Adote um amigo pobre”. Talvez nos ajudasse a resolver vários problemas de uma vez: a falta de consciência de classes, a romantização da pobreza, a bolha do privilégio invisível e os problemas de champanhe que andam invariavelmente entre IRS Jovem, pobres são preguiçosos e não querem trabalhar, o preço dos carros elétricos e o IVA nos bifes da vazia.
Foi uma discussão chatarrona, se a compararmos com as que vemos por aí em horário nobre. Nem uma escaramuçazinha. Nem um lavagante a voar. Nem uma cabeçada-ataque-surpresa. Cheguei a achar que tinha perdido o fulgor na vida, olhem. Nem parecia a menina que ia para a rua nas aulas. Mas não valia a pena - afinal li o Dale; e mesmo que não tenha cumprido o desígnio de não discutir, quero levar a cabo o de conseguir pesar o preço do apito.
Pela meia noite já estava tudo bem. Que seca de bulha, diria eu nos tempos áureos das intifadas com direito a pancadaria no recreio do colégio.
Não acredito que tenha mudado a perspetiva de um adulto que leva uma vida convencido que os filhos da empregada da mãe partem da mesma linha de partida que ele. Mas pode ser que um dia os nossos netos ou bisnetos andem todos a brincar e nenhum deles precise de carregar o peso de saber que o avô passou fome. Só não esperem é que andem juntos nos escuteiros, pelo amor de Deus. Se eu sei que a minha herança anda a ser usada nessas parolices estão tramados.
(Uma última pepita de informação sem meritocracias e privilégios e depois desapareço até para a semana, juro Joca: abaixo adicionei um botão que vos permite pagarem-me um café em jeito de “gostei deste textinho, continua!” ou contribuir para o balúrdio que gasto em livros, anti-histamínicos, croissants recheados e velas aromáticas. A moeda standard são euros, mas também estou a aceitar palavras de apoio, fofocas de qualidade e cápsulas da Nespresso).





Uaauuu
É que privilégio é, ter-te como filha! 💝
Ser parte desta “composição” bonita de ti!
Que grande tesouro esse teu pensamento crítico e analítico embrulhado em empatia!
“Todas as árvores dão frutos…as que passam mais sede dão frutos mais docinhos” dizia o avô velhote 😉
Parabénssss 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼
Que maravilha de texto. É a prova que se pode falar de assuntos sérios e ter um texto leve e cativante! Ainda fiquei à espera de uma canelada furtiva ou de um carolo relâmpago mas fico feliz de não teres escolhido a violência. Eu também cresci privilegiado. Cresci na Apelação (pré bairros sociais), andei na escola do Catujal (onde 80% dos meus colegas viviam no talude militar, tão famoso por ter sido demolido recentemente pelo inenarrável presidente da câmara de Loures). Os meus pais tinham emprego fixo, a minha mãe num ATL e o meu pai na fábrica nacional de margarina. A minha roupa e brinquedos eram da feira das Galinheiras mas nos anos e Natal tinha direito a coisas que vinham de lojas com telhado. O orçamento tinha sempre fundos para livros. Os meus avós viviam no mesmo prédio e tinham um fornecimento infinito de beijos e abraços. Andei no secundário nos Olivais (chique e nazi), fiz o 12º anos a prestações e a trabalhar em part time. Tive média de 16 e disse à minha mãe que não queria ir para a universidade. Quase a matei nesse dia. Salvou-me o meu avô que a convenceu que não podemos ser todos Doutores e Engenheiros senão o que seria do país. Fiz um curso de Técnico de manutenção de aeronaves e ainda lá estou. A minha mãe hoje dá graças por eu não ter ido para a Universidade e não ter ficado à procura de um emprego sem ser a recibos verdes. Para a Universidade entrei com 39. Fui privilegiado ou trabalhei para estar onde estou? As duas coisas. Muito das duas coisas.