Batatinhas com enguias
Esta semana celebra-se o dia da criança e aproveito para resgatar da gaveta algumas crenças que tinha quando era uma. Com elas veio também uma baleia azul imunizada contra o tétano.
(Pequena chef a praticar para o concurso de talentos do Vaticano, que ocorre com frequência absolutamente imprevisível e que inclui provas de culinária, degustação de chocolate branco, ditados em vários idiomas e dialetos tribais, torneios de escondidas e mergulhos para a piscina. Enverga sorriso culpado e chocolate em pó da Pantagruel, sob camisola branca novinha a estrear)
O dia da criança é bem capaz de aparecer no meu top cinco de dias do ano. (e reparem que estamos a competir com o meu aniversário, o do pai e da mãe, o do João, o 25 de abril - especialmente se calhar a um dia da semana - , o dia da mulher, o Natal, a última sexta-feira antes das férias, os dias de reflexão e o dia de receber o IRS).
O pai e a mãe continuam a desejar-me um feliz dia da criança, agora muito felizes eles mesmos porque não têm de sacrificar os seus planos em prol de me ir ver durante uma tarde inteira a saltar em insufláveis com mais vinte putos suados.
É que estes festejos infantis eram coisa para durar um serão completo de sábado ou domingo - e eu não facilitava, que lembrava-me sempre que tinha muita fome e não tinha comido nada mesmo quando era hora de ir embora. (este move ainda me dava mais uns dezassete minutos na festa, a saltitar entre mesas de comida para escolher uma sandes em triângulo só com queijo ou uma gelatina cor-de-laranja num copinho de plástico descartável, que iria comer mesmo muito lentamente, enquanto brincava às ultimas escondidas com a Sara e a Kelly)
Ao crescer tinha umas crenças peculiares (continuo a ter várias, mas diferentes das desta lista, juro Joca). Pensava, por exemplo, que os outros países ficavam em cima das nuvens. Que o mundo onde vivíamos se organizava assim em escadinha, um mega-beliche transcontinental para aproveitar melhor o espaço.
Os países mais quentinhos estavam lá para cima e os mais frios para o fundo, a levar com as chuvas de todos os vizinhos, uma humidade desgraçada. Nós ficávamos no meio, ensanduichados entre Espanha e Marrocos. E de vez em quando lá vinha um dia cheio de espirros e eu amaldiçoava em silêncio os países vizinhos, por andarem a sacudir tapetes ou a atazanar plátanos e mandarem a poeirada toda em cheio para cima de nós.
Também acreditava que a hóstia era feita de chocolate branco. Imaginem a desilusão da criança que foi para a catequese convencida que ia poder comer Galak de forma legal dentro da missa e que depois percebeu (no dia da primeira comunhão!) que afinal era pasta de papel que se colava quase irremediavelmente ao céu da boca (e só saía se tossíssemos muito, atitude reprovada pelo padre e beatas associadas)
Desmentidos esses mitos, continuei a guardar alguns que só com o tempo se dissiparam. Por exemplo: cresci convencida de que o papa era poliglota. Achava que testavam esta habilidade durante as audições para sua santidade o sumo-pontífice, durante aqueles dias todos em que a grupeta passava fechada dentro do Vaticano. (O que raio podiam eles estar a fazer mais para demorarem tanto tempo? Claro que estavam a ouvir o bispo da Guiné a recitar poemas russos e o cardeal patriarca espanhol a repetir os ingredientes para um bacalhau à Brás no seu melhor romeno)
Achava, ainda, que quando batíamos com a cabeça corríamos o risco de um traumatismo ucraniano. Já se torcêssemos um pé podíamos contrair um desfalque (uma espécie de entorse, mas de maior gravidade - que eu lembro-me bem de ouvir a mãe contar de um senhor que fez um lá na fábrica e nunca mais ninguém lhe meteu a vista em cima - e eu pensava “coitadito, deve ter torcido o pé com tanta força que teve de ficar de cama)
O meu dia da criança mais agridoce aconteceu em junho de 2005. Saí mais cedo do ATL (que alegria!) porque a mãe apareceu de carro para me ir buscar (que alegria!!) e levava um presente (que alegria!!!): era uma baleia azul de borracha, daquelas que podemos levar para o banho (que alegr…hm, até uma menina de dez anos começa a desconfiar de tanta esmola…).
Lá ia eu, toda feliz com o novo brinquedo - sem nunca reparar que acabáramos de parar o carro no parque de estacionamento do Centro de Saúde.
Eu gosto muito dos meus pais e adoro vacinas (no conceito, atenção), mas tinha mesmo de ser no dia da criança? De entre todos os dias do ano??? Caraças, que aquela doeu (no braço esquerdo e na confiança em planos que envolvem troca de prendas prévia)
Ainda lá tenho a baleia azul e também ainda por cá anda a velha vacina (digo eu, que não sei bem como funciona). Quem nunca mais foi avistado foi o outro sujeito do pé com desfalque.
(Uma última pepita de informação sem baleias azuis de borracha e traumatismos ucranianos e depois desapareço até para a semana, juro Joca: abaixo adicionei um botão que vos permite pagarem-me um café em jeito de “gostei deste textinho, continua!” ou contribuir para o balúrdio que gasto em livros, anti-histamínicos, croissants recheados e velas aromáticas. A moeda standard são euros, mas também estou a aceitar palavras de apoio, fofocas de qualidade e cápsulas da Nespresso).




Fui verificar e o mito tem o seu quê de verdadeiro: João Paulo II falava 12 línguas, Bento XVI falava 10, o Papa Francisco 7-8 e o papa atual fala fluentemente cinco.
Não falam todas as línguas do mundo como acreditávamos quando éramos pequeninas, mas não estão nada mal.
Que texto tão divertido! Adorei!