Enquanto tu dormes
Hospital da Luz, 24 de Março de 2026
Hoje saímos de casa muito cedo. Não é normal, a uma terça-feira.
Fiquei triste porque não pudeste comer um bolo de arroz nem um pão de leite torrado com pouca manteiga.
Conduzimos até ao hospital. Já estava fila, há sempre fila de manhã na estrada das rotundas.
Chegámos e subi contigo. Vestiste uma bata azul e meteste uma touca por cima dos teus caracóis (os mais bonitos).
Tu és muito forte, meu amor. E corajoso. (Eu estou tão pouco)
Esperámos que te chamassem e te viessem buscar. Ias só até ali ao fundo do corredor, mas eu não quero que te levem para tão longe, quero-te à distância do meu braço direito ou da minha perna esquerda durante a noite.
Disseram-me para ir dar uma volta enquanto esperava. Eu sou impaciente, nunca soube esperar. Tu também não gostas - muito menos com fome.
Esperei e esperei. Contei os carros do lado de cá da rua. E depois os do lado de lá. Contei as folhas das árvores e as cadeiras na sala de espera. Descobri que a senhora das limpezas tem quarenta e sete anos e uma pele impecável. Soube que a enfermeira Graça almoçou arroz malandrinho da sogra.
(Fiquei irritada. Dignam-se a falar destes leves temas mundanos, cremes anti-rugas e receitas de arroz, enquanto eu devoro as falanges com a nervoseira. Eu que nem sou de roer as unhas)
Levaram-te para um lugar misterioso e eu não gosto de hospitais. Estás a dormir e eu gosto de te ver dormir, mas ao pé de mim.
Será que sonhas?
Espero que tenhas sonhos bons e felizes, com cães e chocolates de avelãs e o Benfica campeão.
Este aperto no coração é que eu não aguento. Que te acordem rápido e que te tragam já. Quero ver-te a rir e ver os teus olhos que brilham como o Sol nos primeiros dias da Primavera, as tuas sardas recém-chegadas e os teus braços sempre com tempo para abraçar e conversar sobre mais algum tema parvinho do qual me lembrei.
Enquanto tu dormes, eu tenho medo e o meu coração bate depressa - verifiquei no smartwatch, 127 bpm, parece um cavalo selvagem, ele não descansa porque parte está algures numa salinha interdita, sabe-se lá se a sentir medo ou inquietação, fome ou algum sentimento novo.
Dizem que é nos momentos complicados que nos apercebemos do quanto gostamos da pessoa que temos ao lado, balelas, que eu sempre soube, mas Bolas! que agora sei com muita força e quero dizer-te, acorda logo rápido para poder dar-te o recado.
Dormes e eu penso em tudo o que vamos fazer juntos quando estiveres aqui ao meu lado, nos passeios e nos segredos, nas danças e nas histórias, nos livros e nos filmes.
(Tu dormes, mas sou eu que sonho)
Acreditas em mim quando desacredito e desconfio. Espero que os batas brancas que te levaram te tratem bem e saibam a responsabilidade que têm nas mãos, a minha vida assim anestesiada e eu sem saber quando ma devolvem.
A médica disse “Mais uma hora!”, mas já passaram quase duas e eu não sei esperar, não sei se algum dia vou aprender, e se aprender quero que seja contigo ao lado e não tão longe, assim aprendemos os dois e ficamos pessoas exemplares em filas e no trânsito.
Uma senhora de azul veio dizer-me para não estar nervosa. Eu pensava mesmo que parecia calma por fora. (Se estivesses aqui, dizias “Não há pessoa mais transparente.”)
Não se preocupe, senhora. Eu estarei tranquila assim que vir os olhos dele a sorrir. E não deve faltar muito, que eu sinto que está quase.
(Uma última pepita de informação sem anestesias e salas de espera e depois desapareço até para a semana, juro Joca: abaixo adicionei um botão que vos permite pagarem-me um café em jeito de “gostei deste textinho, continua!” ou contribuir para o balúrdio que gasto em livros, anti-histamínicos, croissants recheados e velas aromáticas. A moeda standard são euros, mas também estou a aceitar palavras de apoio, fofocas de qualidade e cápsulas da Nespresso).




Texto mais bonito e que sorte a minha ter-te ao meu lado 🧡
Chorei um bocadinho. Quando o João foi operado para resolver o problema que impedia a vinda da Teresa, também senti isto tudo que descreves. E, não sei se tiveste oportunidade, mas quando o tiraram da sala d e operações para o quarto de repouso, avisaram-me e eu pude vê-lo no corredor e foi tão estranho, porque parecia que estava a dormir mas sei o tentasse acordar ele não ia acordar porque ainda estava anestesiado, é mesmo como veres a tua vida em suspenso.