Interlúdio
Esta semana sonhei que a minha mãe herdava uma livraria. Senti-me, pela primeira vez em anos, feliz com a perspetiva de uma carreira profissional. Depois fui acordada pelo despertador.
(Pequena sonhadora envergando jardineiras amarelas em pandã com panamá da mesma cor, farda da livraria imaginária na qual trabalha no turno da manhã. Look gentilmente cedido pela mãe, com areal da Foz do Arelho e um banhista de sapatilhas algures no fundo)
No sonho havia uma velhota rica e muito culta. Tinha características de várias velhotas genéricas que vi por aí em padarias a molhar torradas no galão, no cabeleireiro a fazer permanentes ou na papelaria a comprar raspadinhas. O subconsciente juntou os pormenores e construiu uma senhora muito bem falante que, por algum motivo que vá-se-lá-saber-qual, decidiu deixar uma livraria centenária à minha mãe. Alguma coisa se iluminou na minha cabeça de imediato: vou viver daquilo que mais gosto. É tudo tão simples nos sonhos.
Custa-me muito queixar-me do meu trabalho à mãe e ao pai. (Eles vão dizer que é mentira, porque eu queixo-me na mesma - mas custa-me, atenção.)
Primeiro, porque reconheço que não há assim tanto para me queixar. Posso trabalhar a partir de casa, não tenho uma função fisicamente exigente e recebo sempre a tempo e horas. O problema? Apesar de tudo isto, não gosto de o fazer.
E agora entra o coro de “Mas claro que não gostas! Se fosse bom não se chamava trabalho”. (O terceiro hit mais famoso deste coro, depois do “Na vida temos de engolir muitos sapos” e do “É o que é, vai-se andando com a cabeça entre as orelhas”.)
Certíssimo, Sr. Óbvio e Obvietes. Já ouvi que toda a gente prefere estar de férias e que se pudesse escolher entre trabalhar e estar numa praia deitado, a opção óbvia era a segunda (a não ser que estejamos a falar de um nadador salvador - e aí acredito que passar a folga num escritório com ar condicionado até possa parecer um plano interessante de experimentar)
Um trabalho corporativo, mesmo que flexível e com boas condições, deixa a minha criatividade como uma fatia velha de maçã desidratada. Mole e triste.
Quem vive da agricultura sabe que há anos miseráveis para as colheitas. O avô chama-lhe um mal da fruta. As árvores mirram e os poucos frutos que dão parecem doentes, com pintinhas pretas por fora. É uma tristeza ver as pereiras assim, porque as pêras acabam no chão e é um ano perdido.
Um trabalho que não me realiza é o meu mal da fruta. A árvore não morre, até ver está ali na mesma a fazer vista na Primavera, sombra no Verão, abrigo no Inverno. Mas dá ainda menos frutos do que o morangueiro minúsculo da avó e começa a ser olhada de lado pelas outras, que passam pelas intempéries e continuam firmes e consistentes a entregar aquilo que prometem.
Se fosse possível ter o melhor dos dois mundos, escolhia ser uma planta forte e saudável, equilibrada e frondosa, constante mas surpreendente, distinta e segura.
Como não dá, tenho levado as estações num equilibrismo perigoso entre florir no caos ou ficar despida (de ideias, de mim, de um propósito) no meio do terreno que tinha tanto para ser fértil.
No domingo passado não tiveram aqui, pela primeira vez em mais de um ano, um novo texto meu para ler. Depois de tantas ocasiões nas quais até tinha justificação para faltar, falhei numa inesperada. (São estas mesmo que nos passam a perna, adversários que pareciam fraquinhos mas vai-se a ver e esgatanham tudo o que apanham à frente)
Não posso prometer que não volto a saltar uma semana. Posso, sim, assumir que senti falta desse segredo só por mim guardado e da revelação curiosa que domingo sempre traz.
As arritmias podem ser benignas. Pensemos nelas como um interlúdio, um balanço para um futuro de novas colheitas.
Até para a semana e obrigada por continuarem aí,
(Uma última pepita de informação sem obrigações laborais e frutas mirradas e depois desapareço até para a semana, juro Joca: abaixo adicionei um botão que vos permite pagarem-me um café em jeito de “gostei deste textinho, continua!” ou contribuir para o balúrdio que gasto em livros, anti-histamínicos, croissants recheados e velas aromáticas. A moeda standard são euros, mas também estou a aceitar palavras de apoio, fofocas de qualidade e cápsulas da Nespresso).




Que o salto de 1 semana seja o mais esporádico possível. Porque o mundo merece parar um pouco ao domingo para ler os teus textos ❤️
Cresci a ouvir dizer que, “A árvore que passa mais sede dá frutos mais saborosos”
É não é que é verdade? A polpa fica mais rija e mais doce!! 😉
Também toda a semente passa por um longo processo pra dar vida a uma plantinha nova!
Tudo vem no tempo que nos é destinado, é nisso que eu acredito!
Que a vida é um processo em progresso …e que pra nós manter-mos o equilíbrio precisamos a encarar de frente todos os dias, de fazer escolhas e de contar-mos com os melhores… os nossos!
Beijinhos, desta “semente” (já com meio século + meia dúzia) de processo… e que deu vida uma planta rara e bonita …a ti 🥰