A Lista da Bota
Quando tinha onze anos tive uma experiência de quase-morte.
(Pequena camponesa turista, fotografada durante fatídico fim-de-semana em casa da tia Carlota na Serra - do qual sairia com uma cicatriz no sobrolho, um trauma com estradas nacionais, pânico de lagartas e uma longa lista de afazeres patetas.)
Nesse fim-de-semana tinha ido com os pais à serra. Fomos visitar uma tia afastada, que morava sozinha e isolada da civilização.
Chegámos no sábado de manhã, cheios de casacos e todos encarquilhados, depois de uma viagem de quatro horas na nacional.
Eu estava mal disposta porque ainda não tinha percebido que não podia ler no carro, a mãe estava mal disposta porque já não me podia ouvir a queixar-me da indisposição e o pai estava enjoado de conduzir e arrependido de ter casado e procriado.
A estadia foi boa: a tia Carlota era uma eremita bem disposta e hospitaleira. Tinha os quatro canais, mas um só apanhava o som e a imagem era chuva e outro tinha interferências com uma emissora de Espanha (o que me levou a achar, durante uns bons anos, que a tia era uma agente dupla de espionagem para o país vizinho).
Levei alguns jogos de tabuleiro, porque ela era barra no Monopólio - a distância a que estava da cidade não a fazia menos magnata do mercado imobiliário.
Foram dois dias incríveis de natureza e, mesmo antes de partirmos na nacional de volta à realidade, o pai teve a ideia de apanhar alguma lenha para usarmos na lareira da sala. Ajudei nessa tarefa, apesar da mãe me ter tentado impedir - “olha aí, a cachopa ainda se aleija”- talvez por medo da minha figurinha tão franzina, uma magricelas de onze anos a acartar sacos de ráfia cheios de lenha, se fosse eu a ver de fora também tinha medo que a miúda torcesse um braço ou esmagasse um pé no processo. Mas não aconteceu - e a experiência de quase-morte só se deu a meio do caminho de volta.
O ar da natureza, o desgaste do carregamento de madeira e o calorzinho da sofagem do carro foram um cocktail mais mortífero do que um dardo tranquilizante num animal selvagem. Estava no sono mais profundo no banco de trás, a cabeça a pender para a janela, cheia de sonhos sobre agentes secretos e peões do Monopólio que ganham vida, quando volto à realidade com uma estranha comichão no nariz.
Abri os olhos para dar de caras com uma lagarta dos pinheiros, verde e gorda, bem no meio da cana do nariz, a tender para o lado direito, quase a tocar na pálpebra com uma das mil patas fininhas. Tentei enxotá-la, ainda meio adormecida e com os movimentos presos pelo cinto de segurança, mas logo percebi que tinha trazido a família inteira, até as primas afastadas e as amigas e as conhecidas, tinha vindo a lagartagem toda acampar em mim, os pais entretidos no banco da frente a ter conversas de adultos e eu a ser consumida por larvas da lenha, vingativas dos troncos que lhes tínhamos roubado.
Desatei num berreiro de desespero ainda maior do que quando me tinham tentado tirar sangue no laboratório das análises. Desenvencilhei-me do cinto e devo ter esmagado uma dúzia delas só nesse movimento. As entranhas das lagartas e o nojo e a comichão e as lágrimas e os gritos levaram-me a vomitar em jato para cima do pai, no lugar do condutor. A guinada que o carro deu foi tão grande que me fez saltar e embater com um crânio ainda frágil e jovem, sem preocupações a não ser as lagartas dos pinheiros, em cheio no regador que a mãe tinha trazido da serra. Uma relíquia oferecida pela tia, um regador de latão resistente, destes já não se fazem, que agora são todos de plástico.
E agora o banco de trás era uma sopa vermelha (da minha cabeça, das bichas esmagadas) e amarela (do meu vómito, das bichas ainda vivas) e verde (das couves biológicas da horta, todas espalhadas).
O pai encostou na berma de uma curva da nacional, os polícias que o perdoem se estiverem a ler. Puxaram-me para fora e despiram-me para me livrar dos rastejantes, que se tinham libertado dos sacos de lenha do porta-bagagens e me tinham invadido o colo e o sono.
O alívio da nudez de roupas e de lagartas foi superior ao frio que fazia.
A mãe chamou o INEM, enquanto o pai me lavava com as garrafas de água que tínhamos para a viagem - e tirava os vestígios de todos os fluidos, sangue, suor e lágrimas e entranhas minhas e de outrem.
Os bombeiros apareceram e coseram-me a cabeça partida. Foram sete pontos, pelos quais não chorei por já não ter lágrimas nem pulmões. (passei um ano sem chorar, depois dessa peripécia. Esgotei as reservas de água e de pranto, fui uma garota de doze anos muito apática e dormente, e hoje percebo que a culpa pode ter sido desta família de lagartas dos pinheiros. A cicatriz continua no sobrolho, durante a adolescência passou algumas vezes por marca de rebeldia, quando estava na moda dos marginais fazer uma pelada na sobrancelha.)
Não houve necessidade de ir ao hospital, os paramédicos fizeram-me um curativo logo ali na ambulância e seguimos caminho, depois dos meus pais largarem os sacos de serapilheira infestados de insetos na berma da nacional.
Nos dias seguintes tive uma urticária infernal no corpo todo e uma conjuntivite que me fazia parecer uma toupeira com a cabeça ligada. São sintomas comuns do contacto com os rastejantes peludos. Deixaram-me faltar à escola nessa semana, mais pela vergonha da triste figura do que pela incapacidade - porque na quarta-feira já estava a andar de bicicleta sem limitações.
Nos dias em que estive em casa a recompor-me da experiência de quase morte, caiu em mim uma consciência de que a vida, como eu a conhecia, ia um dia terminar - quer fosse à mão da bicharada, das doenças, da velhice, de acidentes automóveis ou de um assassino impiedoso, como os dos policiais que o pai lia. Nunca me tinha morrido nenhuma avó ou avô - que feliz que eu era com onze anos, um penso no sobrolho e todas as partes do corpo e do coração -, por isso este foi o primeiro contacto com o conceito de Fim.
Andei dois dias muito absorta nos pensamentos. Temi o desconhecido e o que vem depois, tive insónias e saudades dos colegas da escola. Os meus pais notaram e perguntaram-me se ainda era o trauma do acidente - disse-lhes para nunca se esquecerem que gostava muito deles, dos avós e do gato.
Entreolharam-se como quem diz “avariámos a miúda de vez às custas de sermos sovinas e querermos poupar dinheiro na lenha”. Marcaram-me uma consulta no psicólogo e tivemos todos uma longa conversa sobre como a vida acaba um dia mas temos de aproveitar o tempo que ela nos dá para colecionar memórias felizes e atitudes que nos enriqueçam a nós e ao próximo.
A primeira atitude que tomei foi ver um filme erótico. Se só se vive uma vez, não ia morrer parva. Estava sozinha em casa e acabei um bocado aborrecida e confusa.
Percebi que o melhor era mentalizar-me que ainda me restavam uns bons anos por cá e foi nesse momento que me lembrei de escrever uma lista de experiências que queria ter antes de morrer. Chamei-lhe A Lista da Bota - porque era uma lista de afazeres antes de bater a bota.
Consegui escrever um total de cem resoluções - que fui riscando nos anos de pré-adolescência e adolescência consumada que se seguiram.
Dou-vos alguns exemplos do que registei como objetivos de vida a longo prazo, nessa altura. Entre os mais parvos, temos:
56 - comer uma mosca,
89 - cantar num karaoke,
24 - ter Muito Bom a Físico-Química
(desses risquei dois e deixo à vossa imaginação quais foram)
Entre os mais inspirados, encontrei:
96- escrever um livro,
45 - portar-me bem,
22 -orgulhar os pais.
(não sei o que quis dizer com esta intenção vaga de bom comportamento - queria uma bolinha verde na tabela de atitudes e valores da turma, ou bastava-me passar com Suficiente a Formação Cívica e não levar recados na caderneta?)
Entre os mais práticos e que puxam para a parvoeira exacerbada, estavam:
59 - mudar um pneu,
33 - contratar um stripper,
79 - andar à porrada num bar.
(o meu eu de onze anos que escreveu estes pontos não sabia a felicidade que daria ao meu eu adulto, que teve de sacar do macaco em plena berma da A5 e pôr mãos à obra para meter o pneu suplente em hora de ponta num dia de chuva - pelo menos tive a felicidade sigilosa e palerma de chegar a casa e riscar o ponto 59 da Lista da Bota. Foi a primeira coisa que fiz mal entrei em casa, ainda encharcada mas feliz por terminar mais um dos meus projetos infantis. O que é a vida, se não estas pequenas vitórias privadas?)
Guardei a lista, já muito riscada, na caixa de recordações que tenho ao fundo do armário do antigo quarto na casa dos pais.
A par da Lista da Bota, também lá moram bilhetes de sessões de cinema, duas cartas de amor, uma lata azul de bolachas de manteiga que a avó guardava na cozinha do forno, um bloco com autógrafos dos jogadores da seleção e o adesivo que os paramédicos usaram para colar a ligadura do sobrolho.
Gosto de voltar a essa caixa de cada vez que preciso de algum alento para continuar - releio a Lista da Bota e, por mais que me aperceba que envelheceu mal, leva-me sempre a lembrar-me daquela pequena aluna do ensino básico, da vontade que tinha de viver anos suficientes para completar todas as cem linhas e da crença que depositava em si mesma para se achar capaz de, algum dia, ter Muito Bom a Físico-Química.
(Uma última pepita de informação sem lagartas dos pinheiros e pensos no sobrolho e depois desapareço até para a semana, juro Joca: abaixo adicionei um botão que vos permite pagarem-me um café em jeito de “gostei deste textinho, continua!” ou contribuir para o balúrdio que gasto em livros, anti-histamínicos, croissants recheados e velas aromáticas. A moeda standard são euros, mas também estou a aceitar palavras de apoio, fofocas de qualidade e cápsulas da Nespresso).




maravilhoso!! da próxima vez que vir uma lagarta dos pinheiros mando-lhe um mau olhado por ti
Tão bom! 😂