Chiça, penico!
Se são meus pais e estão a ler este texto, parem já! Não há nada para ver aqui. Vou falar de sexo e coisas marotas e sobre isso vocês não vão querer ler, ok? Adoro-vos muito, mas até para a semana!
Jovem donzelinha branca na Primeira Comunhão, a provar a hóstia pela primeira vez e a conseguir - vitoriosamente - não soltar um foda-se quando percebeu que aquilo sabia a pasta de papel em vez de a chocolate branco Galak Buttons, como sempre julgara.
(Já saíram, os progenitores? O caminho está livre?)
Ótimo! Então vamos lá falar de palavrões.
Na casa onde cresci não se diziam asneiras. A minha mãe trabalha com crianças, por isso nunca a ouvi proferir muito mais do que uma fugitiva merda! quando se picava numa agulha da máquina de coser - ou daquela vez em que lhe meti uma aranha de plástico no ombro e ela deixou cair o serviço de copos de cristal que transportava equilibradíssimos em mãos para pousar na mesa da Consoada em casa dos avós (não sei como raio não fiquei de castigo, mas agora já não vou a tempo de lhe perguntar porque decidi afugentá-la no primeiro parágrafo).
O meu pai trabalhava com muitas mulheres na fábrica e havia o cuidado de não dizer palavrões em frente a outras senhoras. Acho que a primeira vez que o ouvi a dizer um palavrão já eu votava (não que os acontecimentos estejam ligados, que o meu pai não profere impropérios acerca da minha cor política).
Uma vez convocaram-nos aos dois ao Jardim de Infância porque eu tinha chamado puta a uma educadora. Quando questionada, respondi um tão simples “Se os meninos são putos, as meninas são putas”, o que provocou reações em cadeia:
a minha mãe passou-se dos carretos com o meu pai, influenciador involuntário de palavreado impróprio,
o meu pai erradicou os putos e começou a dizer cachopos,
a Paulinha educadora respirou de alívio, porque afinal o insulto era só um erro gramatical de criança e eu não lhe tinha descoberto a careca tão precocemente (e assim podia ser putinha à paisana mais uns bons anos)1
(E se os meus progenitores não obedeceram e continuaram a ler, foi aqui que acabei de perder a minha mãe, “Oh filha, não havia necessidade”. Eu avisei!)
Uma das histórias que mais vezes ouvi a mãe contar foi a do dia em que foi dar comigo sozinha e fechada no quarto, com quatro anos ainda mal feitos, a sussurrar uma palavra repetidamente enquanto caminhava em círculos. À primeira vista achou que a herdeira estava possuída pelo Capeta ou que tinha saído hipnotizada de uma maratona dos Ursinhos Carinhosos, mas depois abriu bem os ouvidos para escutar a palavra que eu repetia.
Fiquem com o belíssimo poema por mim declamado:
Pichota, pichota, pichota, pichota, pichota
Pichota, pichota, pichota, pichota, pichota
Pichota, pichota, pichota, pichota, pichota (Bis)
(A minha mãe é hoje uma pessoa muito forte do coração e em parte foi devido a este episódio, não tenho dúvidas.)
Quando abriu a porta por completo e denunciou a sua presença, eu fiquei muda e agi como se nada fosse.
“O que estavas para aí a dizer?”
“Não posso contar. A Carina ensinou-me, mas disse que só posso dizer quando estiver sozinha”
(Ah! Com que então escolhi esbanjar a centelha de obediência que as fadas madrinhas me depositaram à nascença para repetir um palavrão tosco a mando da Carina, uma colega mais velha do ATL.)
Hoje em dia, Carina já é casada e mãe há muitos anos. (Nâo vais fazer piadas brejeiras sobre pichotas, Não vais fazer piadas brejeiras sobre pichotas, Não vais fazer piadas brejeiras sobre pichotas, Controla-te, Sónia)
À exceção deste episódio, a minha carreira de asneirolas (faladas) revelou-se muito fraca. Foi uma miséria ao ponto de, com sete anos, ter implorado à minha mãe para me pôr pimenta na língua (porque ouvia os meus colegas na escola a testemunhar os seus feitos de enfants terribles, inchados de moral, e eu cheia de FOMO2 porque nunca tinha provado - nem o castigo, nem a especiaria. Nem a moral, mas isso são outros quinhentos).
Tanto azucrinei a cabeça da minha mãe que lá consegui que ela me polvilhasse a língua com pimenta. E se não tinha dito nenhuma asneira antes, disse todas as que sabia depois - porque Meu Deus do Céu, minha Nossa Senhora do Condimento! Ainda por cima tínhamos pressa para sair de casa naquela tarde e eu decidi esfregar a língua apimentada com sabonete das mãos Aroma Leite e Mel do então Feira Nova - ativando o botão Pior a Ementa que o Soneto. Foi uma nojeira de ir aos vómitos e eu já só tossia bolhas de sabão e desespero. (Tudo agravado por não poder chorar, sob pena de ouvir o conhecido lapaduço psicológico do “Eu bem te avisei”)
Estava já no nono ano quando, possuída por uma raiva ardente, chamei puta por escrito a uma colega de turma (não lhe disse que ela se prostituía gramaticalmente, o insulto é que foi através do MSN, direto do meu teclado do portátil da e-escolas - andavam os fundos europeus a incentivar a expansão digital para depois esta pita se armar em cyberbully no Magalhães). Ela imprimiu as conversas (rica, tinha impressora em casa e um frigorífico com duas portas) e fez questão de levar as folhas para a escola no dia seguinte, para me difamar. Se eu fosse como certos deputados contemporâneos, tinha culpado a inteligência artificial, o phishing, os hackers ou os russos. Mas não culpei ninguém, porque corria 2009 e via-se perfeitamente o meu nickname nas folhinhas.
Em minha defesa, nada. Nem sequer fui justa. Podia ter-lhe chamado tantas coisas criativas e sinceras (sonsa, arrogante, falsa, cínica, eram todas faltas justificadas), mas fui logo para a opção mais fácil e passível de vermelho direto. Felizmente não chegou aos ouvidos da diretora de turma (a quem, anos mais tarde, chamei raposa - situação sobre a qual me quero retratar: retiro este insulto feio e desnecessário à comunidade das raposas, que são realmente animais amorosos).
Sendo das Caldas da Rainha, o palavrão está-me nas origens - logo a começar pelo porta-estandarte da cidade. Para fugir aos rodeios (e porque pode ser do desconhecimento de quem lê), os Caralhos das Caldas são património municipal. Há de todos os tamanhos, cores, materiais, feitios, clubes, religiões e profissões. No Natal temos dos que se penduram na árvore, como souvenirs intemporais há batons marotos e ímanes de frigorífico impróprios para púdicos, pelos Santos Populares há sardinhas em loiça com formatos sugestivos e nem os pães com chouriço e os biscoitos tradicionais escapam ao célebre formato caldense, inconfundível em qualquer parte do globo.
Fora do conceito de mascote fálica, o Caralho não é palavra da qual tenha feito usufruto ao longo da vida (reescrevi esta frase 47 vezes e nunca soava bem, por isso desisti de tentar e foi assim). Não uso este palavrão a não ser em situações-limite e de absoluto desespero (tinha uma colega que dizia muitas vezes Caralhos me fodam e eu acumulava várias questões - acima de tudo, pensava “Jesus Cristo, se tudo está mal porque quer ela que fique ainda pior?”). Se for para referir o das Caldas ou o Mais Velho, sai-me facilmente. Se for para mandar alguém recambiado para lá ou para me referir a um membro masculino em concreto, já não. Até acho rude e brejeiro (mas fala-vos esta que chamou puta a uma colega no nono ano, estou longe de ser entidade certificada na Ordem da Brejeirice).
Já saí de casa há doze anos (com mil loiças tradicionais das Caldas que rimam com espantalho!) e morei numa Residência Universitária durante a faculdade. Todos os semestres recebíamos novos alunos internacionais, colegas estrangeiros para Erasmus ou intercâmbio. Chegavam do Brasil, do Perú, da Colômbia, do Vietnam, de Itália, da Turquia, da Síria, de todos os cantos que possam imaginar. Desnecessário será dizer que a primeira lição de Português a que os submetíamos consistia em ensiná-los a pronunciar um foda-se digno de nativo, um puta que pariu com dicção invejável e um põe-te no caralho simples mas eficaz, que cumpre (os nossos colegas do Norte eram especialmente dedicados a apoiar nesta área, repetindo diariamente e sem que nada o pudesse prever os vocábulos aos berros nos corredores - tudo isto para ajudar os recém-chegados a ambientar-se ao novo idioma, claro está).
Lançar ao ar um impropério está na nossa Natureza. Peçam lá aos Laboratórios de Análises Clínicas para que, da próxima vez que tirarem sangue, vos testem também a concentração de anticorpos contra obscenidades. Se se observarem valores altos é ótimo sinal, estão aptos para mandar uns “fónix” e uns “fosca-se”; se possuírem imunoglobulinas sazonais vão ficar muito asneirentos na época da queda da folha, se só se encontram raros vestígios é bom que mordam as línguas para não mandarem uma blasfémia que vos comprometa em frente à entidade empregadora (ou aos pais).
Há algo de libertador na asneira. É uma palavra palavrosa mas rápida, intuitiva, nem os gagos encravam nelas. Ainda me lembro de quando era criança e ouvia o Chico Fininho só para poder cantar segue o seu caminho, com a merda na algibeira, porque era assim mesmo o verso e não era ofensa se fosse em cantoria.
Quero terminar este texto com três agradecimentos e um pedido de desculpas.
O primeiro agradecimento é à minha mãe, que me alertou sobre a identidade do Boda antes que qualquer outro Chico Esperto se pudesse armar em Carina.
O segundo é à professora de Ciências do oitavo ano, que não chamou o Encarregado de Educação à escola quando eu me passei da marmita e disse à Débora que na terra dela só não lhe faziam a folha porque na Índia as vacas eram sagradas (isto sim, era um momento pimenta na língua - mas ela, além de me ter insultado, tinha-me copiado integralmente e sem consentimento o teste de Ciências por cima do ombro e a stôra obrigou-nos a ambas a repeti-lo).
O terceiro agradecimento é à Rita Dantas, das Boas Intenções, que me inspirou a escrever este texto depois de ler a sua dissertação sobre falta de tento na língua.
Finalmente: o pedido de desculpas é à Débora, que realmente podia ser vaquinha mas confiou em mim e isso levou-a a chumbar a Ciências.3
(Uma última pepita de informação sem palavrões e depois desapareço até para a semana, juro Joca: abaixo adicionei um botão que vos permite pagarem-me um café em jeito de “gostei deste textinho, continua!” ou contribuir para o balúrdio que gasto em livros, anti-histamínicos, croissants recheados e velas aromáticas. A moeda standard são euros, mas também estou a aceitar palavras de apoio, fofocas de qualidade e cápsulas da Nespresso).
Insulto justificado, se me permitem. “Paulinha” foi, muitos anos mais tarde, condenada a dois anos de prisão por maus-tratos infantis. Deviam ter-me dado ouvidos quando eu disse “Oh puta, dá cá o iogurte”
Fear of missing out; medo constante de estar a “perder algo” ou a “ficar de fora”
Estrelinha que te guie, Caralhinho que te foda.




Eu acho todos os teus textos bons e hilariantes (e não é porque somos amigas!), mas este ganhou! Eu nem estou a conseguir respirar, sobretudo porque o meu pai um dia vai e virou um dedo ao contrário, a primeira coisa que disse foi “caralhos me fodam” e a minha mãe telefonou-me a contar e a rir-se desalmadamente (do impropério dito por um homem, não do acidente claro) 😂
Uiiii o que pr’aqui vai ☺️
A semana veio com trovoada, agitou-te as “lembraduras” … e trouxe alguns grãos de pimenta lá do fundo… chamo- lhes tempero!
Contudo não me posso queixar do plantio, do crescimento bonito , nem da colheita equilibrada!
Eu pago o café sim, o próximo é numa chávena das Caldas 😉 (com surpresa)😊😅